PT

CCMI/239

Reindustrialização da Europa no contexto da crise do custo de vida

PARECER

Comissão Consultiva das Mutações Industriais

Reindustrialização da Europa – Oportunidades para as empresas, os trabalhadores e os cidadãos no contexto da crise do custo de vida

(parecer de iniciativa)

Contacto

Adam.Dorywalski@eesc.europa.eu

Administrador

Adam Dorywalski

Data do documento

10/6/2025

Relator: Andrés Barceló Delgado (ES-I)

Correlatora: Monika Sitárová (SK-Cat. 2)

Conselheiros

Vega Gil Oyaregui (do relator, Grupo I)

Juan José Luis Delgado (da correlatora, Cat. 2)

Decisão da Plenária

3/12/2024

Base jurídica

Artigo 52.º, n.º 2, do Regimento

Competência

Comissão Consultiva das Mutações Industriais (CCMI)

Adoção em secção

4/6/2025

Resultado da votação
(votos a favor/votos contra/abstenções)

36/1/3

Adoção em plenária

D/M/YYYY

Reunião plenária n.º

Resultado da votação
(votos a favor/votos contra/abstenções)

…/…/…



PREÂMBULO

O presente parecer faz parte de um pacote mais vasto de pareceres do CESE sobre a crise do custo de vida. Este pacote constitui a ocasião de o CESE analisar as diferentes facetas desse desafio político e apresentar um conjunto abrangente de recomendações de grande alcance aos decisores políticos europeus e nacionais, às organizações da sociedade civil e a outras partes interessadas. O pacote é constituído por sete «pareceres setoriais» 1 , cada um dedicado a questões de um domínio de intervenção específico. Além disso, um «parecer geral» 2 apresenta as recomendações estratégicas gerais para fazer face à crise do custo de vida no seu conjunto e reforçar a resiliência contra crises futuras.

1.Conclusões e recomendações

1.1O Comité Económico e Social Europeu (CESE) congratula-se com a iniciativa da Comissão Europeia intitulada «Bússola para a Competitividade», centrada na melhoria da competitividade da economia da União Europeia (UE), a fim de colmatar o fosso em relação aos EUA e à Ásia. O seu desenvolvimento deve conter métricas de desempenho claras para permitir que as instituições da UE e as partes interessadas acompanhem a realização de todas as tarefas previstas na Bússola. Também é necessário aumentar o investimento privado e público para reforçar a competitividade da UE.

1.2O programa de trabalho da Comissão para 2025 prevê um Plano de Ação para Energia a Preços Acessíveis. O CESE insta a Comissão a garantir que o plano assegurará o fornecimento de eletricidade a um preço estável, competitivo e previsível. Deve igualmente abranger a energia hipocarbónica, através de fontes renováveis e de combustíveis renováveis de origem não biológica.

1.3A autonomia estratégica aberta deve estar no cerne do processo de reindustrialização, garantindo o acesso às matérias-primas, diversificando as fontes e tornando a economia da UE mais resiliente. Para incentivar as empresas a aproximarem a sua produção da UE, o CESE recomenda uma política industrial assente numa abordagem da cadeia de valor que atribua a mesma importância às atividades a montante e a jusante na transição, por exemplo, através do aumento do número de parcerias com países terceiros e da simplificação dos procedimentos de licenciamento, sem descurar o cumprimento das normas laborais, sociais e ambientais, para apoiar o crescimento das indústrias extrativas na própria UE.

1.4Os legisladores da UE devem utilizar o futuro ato legislativo sobre o acelerador da descarbonização industrial para assegurar a sustentabilidade de modelos de negócio alternativos e circulares, proporcionando licenciamento acelerado, apoio financeiro e políticas de apoio às empresas empenhadas na transição. A proposta de ato legislativo sobre economia circular deverá transmitir uma mensagem clara de apoio às empresas circulares, garantindo aos investidores que a UE é o ambiente ideal para o desenvolvimento de soluções limpas.

1.5O diálogo social, incluindo a negociação coletiva, deve estar integrado no processo de reindustrialização, a fim de reforçar a dimensão social do mercado único.

1.6A reindustrialização exige um programa de inovação específico com metas concretas que abranjam tanto as indústrias existentes como os novos empreendimentos e que se baseiem no diálogo social. Este programa exige investimento público, que deve ser acompanhado de condicionalidades sociais tal como descritas no Pacto da Indústria Limpa.

1.7O CESE propõe que a UE promova programas de parceria público-privada para impulsionar o investimento industrial, que incluam uma secção específica para fomentar o empreendedorismo dos jovens no setor da indústria transformadora. O programa deve promover a cooperação entre as instituições públicas e as empresas privadas, a fim de acelerar a inovação e a comercialização de novas tecnologias.

1.8O CESE solicita que a futura proposta da Comissão sobre a União das Competências preveja o reconhecimento direto e a validação das competências dos trabalhadores em toda a UE, uma vez reconhecidas por um organismo do setor público de um Estado-Membro, reduzindo os encargos burocráticos. A Comissão deve lançar um programa à escala da UE para promover programas de aprendizagem com uma remuneração justa no setor da indústria entre as gerações mais jovens, o que favorece uma mão de obra mais resiliente. Deve também prever instrumentos para antecipar e gerir a mudança, oferecendo uma via de transição justa que inclua, no quadro do diálogo social, a melhoria de competências e a requalificação da mão de obra.

1.9O regime de contratação pública ecológica constitui uma oportunidade para impulsionar e reconhecer os esforços de sustentabilidade das empresas da UE de forma não discriminatória.

1.10A fim de reforçar a competitividade e manter e expandir a produção industrial na UE, o CESE entende que os pacotes omnibus devem assegurar a coerência regulamentar e a segurança jurídica para as empresas e para os trabalhadores, racionalizar os procedimentos de licenciamento, tornando-os mais claros, mais rápidos e mais previsíveis, reduzir os fluxos de comunicação de informações e evitar redundâncias nos processos de notificação. A harmonização das normas em matéria de tecnologias limpas em toda a UE pode também facilitar a conformidade regulamentar e o acesso das empresas ao mercado.

2.Observações na generalidade

2.1Embora alguns indicadores macroeconómicos pareçam indicar que a economia da UE tem um desempenho aceitável, marcado por uma inflação mais baixa, uma taxa de desemprego muito baixa e menores custos energéticos do que durante a crise energética de 2022, o inquérito Eurobarómetro do outono de 2022 da Comissão Europeia concluiu que o aumento do custo de vida foi a preocupação mais premente para 93% dos cidadãos da UE 3 . Este sentimento tem-se mantido: o custo de vida (42%) e a situação económica (41%) foram os principais temas que motivaram os cidadãos europeus a votar nas últimas eleições europeias de junho do ano passado 4 . Além disso, no último inquérito em grande escala da Eurofound de 2024, um maior número de inquiridos referiu ter dificuldades em fazer face às despesas em comparação com o ano anterior, com 30% dos inquiridos a afirmar que era difícil ou muito difícil fazer face às despesas contra 22% em 2023 5 .

2.2A Europa enfrenta atualmente o duplo desafio de ultrapassar a crise do custo de vida e inverter os efeitos a longo prazo da desindustrialização. Ambas as questões estão profundamente interligadas e têm implicações significativas para as empresas, os trabalhadores e os cidadãos em toda a União.

2.3Principais fatores da crise do custo de vida

2.3.1A inflação subiu em 2021, impulsionada pela rápida recuperação económica após a COVID-19, atingindo 2,9%. A guerra na Ucrânia e a crise energética elevaram a taxa de inflação para 9,2% em 2022. Depois de ter descido ligeiramente para 6,4%, a taxa de inflação caiu para 2,6% em 2024. No entanto, o sentimento de inflação é muito forte, uma vez que os produtos do cabaz de compras das famílias têm registado uma tendência ascendente permanente 6 . A inflação diminuiu significativamente o poder de compra, exercendo uma enorme pressão financeira sobre os agregados familiares com rendimentos médios e baixos.

2.3.2Embora os preços grossistas da eletricidade e do gás tenham diminuído significativamente desde o final de 2022, continuam a ser cerca do dobro dos seus níveis históricos, com flutuações influenciadas por medidas regulamentares, condições de mercado e tensões geopolíticas em curso 7 . A recente reforma do mercado da eletricidade não teve o resultado desejado, uma vez que a ordem de mérito (o sistema de fixação de preços marginais) impede os consumidores de beneficiarem plenamente da implantação de energias renováveis. O Relatório Draghi destaca a grande disparidade dos preços da eletricidade e do gás entre a UE e os EUA 8 . Os custos da energia continuam a ser motivo de grande preocupação não só para a indústria – que, a par dos transportes, é um dos maiores consumidores de energia – mas também para os agregados familiares mais vulneráveis.

2.3.3O impacto na desigualdade económica tem sido variável e multidimensional em termos de rendimento, acesso à saúde e educação. Prevê-se que, em 2024, os salários reais na UE se situem ainda 1,1% abaixo do seu nível de 2019. Muitas famílias com rendimentos baixos e médios baixos continuam a sentir os efeitos negativos do período de inflação elevada sobre o seu poder de compra. Em comparação com os níveis anteriores a 2022, a privação material e social e as dificuldades financeiras dos trabalhadores continuam especialmente elevadas 9 . Ao mesmo tempo, alguns grupos sociais foram mais afetados do que outros, sendo que os trabalhadores pouco qualificados, as mulheres e os jovens foram os mais atingidos. Os efeitos a longo prazo ainda não foram estudados 10 .

2.3.4A crise do custo de vida, o aumento dos preços da energia e o impacto da pandemia de COVID‑19 exacerbaram os problemas relacionados com a acessibilidade dos preços da habitação. Além disso, fatores estruturais como a urbanização, as alterações demográficas e o investimento especulativo no setor imobiliário provocaram um aumento dos custos de habitação 11 . Os custos de habitação excessivos afetam não só os agregados familiares com baixos rendimentos, como também os agregados familiares com rendimentos médios e os jovens. A habitação a preços acessíveis é provavelmente o principal desafio para os jovens, impedindo-os de iniciar uma vida independente. Embora no final de 2023 a situação do mercado de trabalho dos jovens fosse mais favorável do que nos últimos anos, subsistiam muitos obstáculos no seu percurso para a independência, como o aumento do custo de vida e a sua incapacidade de abandonar a casa dos pais 12 .

2.4Desindustrialização na Europa

Ao longo das últimas décadas, a Europa passou por um processo de desindustrialização ainda em curso, marcado por uma diminuição constante do contributo da indústria transformadora para a economia em geral. Nos últimos anos, o peso da indústria no PIB diminuiu de 21,0% em 2005 para 18,5% em 2022 13 . Os postos de trabalho na indústria transformadora continuaram a diminuir a um ritmo incontrolável em todo o continente desde 2008 e o impacto afeta não só os trabalhadores pouco qualificados, como também os profissionais altamente qualificados 14 . Esta mudança foi impulsionada por vários fatores:

2.4.1Globalização: tradicionalmente, as empresas externalizam as cadeias de abastecimento e a sua capacidade de produção para reduzir os custos. A deslocalização da indústria transformadora para regiões com custos de mão de obra mais baixos resultou na deslocalização da produção, conduzindo ao encerramento de fábricas e à perda de postos de trabalho na Europa.

2.4.2Atrasos na adaptação tecnológica e subinvestimento na inovação: os progressos na automatização e na digitalização reduziram a procura de empregos no setor da indústria tradicional, criando um desfasamento entre as competências da mão de obra e as necessidades das indústrias modernas.

2.4.3Políticas centradas nos serviços: muitas economias europeias privilegiaram de modo crescente os setores dos serviços, o que, em alguns casos, levou a que a indústria transformadora nacional fosse relegada para segundo plano. Esta mudança contribuiu para o declínio das atividades industriais, o que evidencia a necessidade de uma abordagem política mais equilibrada.

2.4.4As políticas comerciais, industriais, ambientais e regulamentares da UE, as alterações demográficas, a escassez de mão de obra, a falta de investimento adequado e a diminuição da competitividade também desempenharam um papel importante nos processos de desindustrialização.

2.4.5A desindustrialização teve consequências profundas. As regiões outrora prósperas devido à indústria transformadora sofreram uma estagnação económica, taxas de desemprego mais elevadas e disparidades regionais cada vez maiores. A perda de capacidade industrial também aumentou a dependência da Europa das importações, expondo o continente a vulnerabilidades nas cadeias de abastecimento mundiais e nos mercados da energia, como demonstrado pela experiência da pandemia de COVID-19.

2.5A indústria está de novo na agenda política

A reindustrialização seria a melhor escolha, oferecendo uma via estratégica para:

2.5.1Reforçar a resiliência económica: o aumento do custo total de propriedade, a subida em flecha dos salários, incluindo em países terceiros, o aumento dos custos de transporte, o aumento dos custos e dos montantes de direitos de importação, bem como as potenciais perturbações do aprovisionamento, estreitam a vantagem habitual em termos de custos das cadeias de abastecimento externalizadas. Ao aumentar a produção local e reduzir a dependência de cadeias de abastecimento mundiais voláteis, a Europa pode reforçar a sua estabilidade económica e autonomia estratégica.

2.5.2Promover a inovação: a indústria é o principal motor da inovação em produtos, processos e serviços. Os novos desafios relacionados com a digitalização e a inteligência artificial, a robótica e a economia circular constituem uma oportunidade essencial para a UE. O paradigma da Indústria 5.0 está a moldar e a definir o processo atual de reindustrialização. O objetivo é criar uma base industrial moderna, competitiva e sustentável.

2.5.3Promover a sustentabilidade: a integração de práticas sustentáveis e da economia circular nas atividades industriais pode ajudar a UE a alcançar os seus ambiciosos objetivos climáticos, a tornar-se menos dependente das matérias-primas e a criar novas oportunidades de mercado.

2.5.4Proporcionar empregos de qualidade e seguros, juntamente com um diálogo social permanente: a indústria impulsiona o emprego e assegura a integração e a estabilidade social.

2.5.5Em alguns países, as cooperativas de aquisição da empresa pelos trabalhadores revelaram-se uma metodologia bem-sucedida que poderia ser alargada a outros Estados-Membros da UE. Quando devidamente estruturadas, estas cooperativas podem salvar os postos de trabalho e evitar o encerramento das unidades de produção.

2.6Contexto político estratégico

A indústria na UE deve colmatar o fosso em relação aos seus principais parceiros comerciais, como os EUA e a China, através de iniciativas estratégicas em consonância com o Relatório Draghi sobre a competitividade da UE e de iniciativas da Comissão Europeia.

2.6.1O Pacto da Indústria Limpa propõe uma via clara para colocar a tónica na descarbonização, nas tecnologias limpas e no incentivo ao investimento. A Comissão ajudará a criar um quadro regulamentar favorável ao crescimento, apoiando a indústria nos seus esforços para inovar, expandir, fabricar produtos e prestar serviços, trabalhando em parceria com todas as partes interessadas para assegurar soluções específicas para cada cadeia de valor.

2.6.2A Bússola para a Competitividade, desenvolvida com base nas recomendações do Relatório Draghi sobre o Futuro da Competitividade Europeia, define três domínios de ação fundamentais: inovação, descarbonização e competitividade, segurança e resiliência, e cinco atividades transversais: simplificação, redução dos obstáculos ao mercado único, financiamento da competitividade, promoção das competências e do emprego de qualidade e harmonização e coordenação das políticas a nível nacional e da UE. Permitirá uma redução «sem precedentes» da burocracia, com especial destaque para as PME europeias, e incluirá uma Ferramenta de Coordenação da Competitividade para ajudar os Estados-Membros a cooperar em projetos de interesse estratégico comum.

3.Observações na especialidade

3.1Ao combater as causas profundas da desindustrialização e da crise do custo de vida, a Europa pode aproveitar este momento para redinamizar a sua economia, capacitar a sua mão de obra e melhorar a qualidade de vida dos seus cidadãos. Destacam-se a seguir alguns aspetos e oportunidades fundamentais.

Para as empresas:

3.1.1A reindustrialização oferece uma oportunidade para tirar partido das tecnologias avançadas, promovendo a inovação e reforçando a competitividade global. As indústrias europeias podem tornar-se líderes na transformação ecológica e digital.

3.1.2Ao promoverem a recuperação da indústria transformadora e ao relocalizarem a produção, as empresas podem atenuar os riscos decorrentes das perturbações da cadeia de abastecimento mundial e estabilizar os custos.

3.1.3A adoção de práticas sustentáveis em linha com os objetivos climáticos da UE pode abrir novos mercados de produtos e serviços respeitadores do ambiente.

Para os trabalhadores:

3.1.4Uma ênfase renovada na indústria pode garantir empregos estáveis e bem remunerados em vários setores, resolvendo os problemas de desemprego exacerbados pela desindustrialização.

3.1.5O investimento na educação e na formação profissional garante uma mão de obra capaz de satisfazer as necessidades das indústrias modernas.

3.1.6As indústrias resilientes e ancoradas a nível local proporcionam oportunidades de emprego mais estáveis, reduzindo a dependência de mercados mundiais voláteis.

3.1.7Ao colocar a tónica nas práticas sustentáveis e éticas, os trabalhadores poderão beneficiar de melhores condições de trabalho e de segurança no emprego.

Para os cidadãos:

3.1.8Um setor industrial próspero promove a estabilidade económica global, melhorando o nível de vida e reduzindo a pobreza.

3.1.9A indústria proporciona empregos de qualidade que, juntamente com as receitas fiscais geradas pela atividade industrial, servirão para investimentos públicos em infraestruturas e serviços.

3.1.10A revitalização das zonas industriais pode melhorar as infraestruturas, reforçar os serviços públicos e dinamizar as economias locais.

3.2De um modo geral, a reindustrialização pode trazer benefícios importantes a longo prazo. No entanto, apresenta também desafios que exigem esforços coordenados, tanto a nível da UE como dos Estados-Membros, e que têm de ser geridos através de políticas e de um planeamento estratégico sério, a saber:

3.2.1Um dos maiores desafios é atrair e reter trabalhadores qualificados. A indústria concorre com outras atividades económicas para atrair e reter os melhores talentos, o que exige a oferta de empregos estáveis, salários competitivos e progressão na carreira. O Roteiro para Empregos de Qualidade é uma iniciativa positiva da Comissão Europeia, uma vez que empregos de qualidade e condições de trabalho dignas são cruciais para atrair trabalhadores. Importa também aplicar políticas para ativar e equipar segmentos específicos da população que estão fora do mercado de trabalho e dotá-los das competências necessárias, com especial destaque para as mulheres, os jovens e os migrantes e outros grupos vulneráveis. Além disso, os Estados-Membros devem estar abertos a acolher trabalhadores qualificados de países terceiros de forma simplificada e não burocrática, nomeadamente acelerando os processos de autorização de trabalho, reconhecendo as qualificações estrangeiras e garantindo igualdade de tratamento. A UE deve ter como meta ser um destino preferencial para os trabalhadores qualificados de todo o mundo.

3.2.2Proporcionar aos trabalhadores formação e oportunidades para desenvolver competências técnicas e não técnicas, bem como um percurso de carreira claro e perspetivas profissionais: à medida que as indústrias evoluem, há uma necessidade contínua de formar e requalificar a mão de obra para garantir uma boa correspondência entre as competências e as exigências do mercado de trabalho. É crucial dispor de uma mão de obra qualificada e resiliente, especialmente nos setores que enfrentam a dupla transição. Além disso, o CESE congratula-se com o apelo da Comissão no sentido de alterar as regras em matéria de auxílios estatais e impor condicionalidades sociais aos investimentos públicos, a fim de proporcionar incentivos mais eficazes à indústria para investir na melhoria de competências, na requalificação, em empregos de qualidade e no recrutamento de trabalhadores para uma transição justa. A União das Competências e o Plano Estratégico para o Ensino das CTEM devem concorrer para este objetivo. Esta formação deve prever o reconhecimento direto e a validação das competências dos trabalhadores em toda a UE, uma vez reconhecidas por um organismo do setor público de um Estado-Membro, reduzindo os encargos burocráticos.

3.2.3O ritmo acelerado dos avanços tecnológicos exige que as indústrias se adaptem e inovem continuamente. A indústria deve aderir à transformação digital, o que passa por adotar novas tecnologias, com especial destaque para uma abordagem sólida em matéria de cibersegurança, a fim de garantir a integridade dos dados e o pleno respeito pelos direitos pessoais.

3.2.4Reindustrializar e ao mesmo tempo descarbonizar constitui um desafio. As indústrias devem contrabalançar o crescimento com a sustentabilidade ambiental e social. A integração de práticas sustentáveis nos processos industriais é essencial para satisfazer a regulamentação ambiental e as expectativas dos consumidores. Tal implica adotar tecnologias ecológicas, reduzir a pegada de carbono e promover os princípios da economia circular. É necessário incentivar os produtos circulares e os modelos empresariais inovadores assentes na circularidade, para que possam continuar a competir com os modelos empresariais tradicionais e rentáveis e para tornar acessíveis os produtos e serviços «ecológicos» e «limpos».

3.2.5Encargos administrativos e regulamentares e aspetos transfronteiriços: o quadro regulamentar e os procedimentos de aprovação administrativa da UE são frequentemente considerados complexos e onerosos, com 32% das empresas europeias a considerarem a regulamentação como um «grande obstáculo» às suas atividades de investimento 15 . As empresas enfrentam custos de conformidade significativos e atrasos administrativos na obtenção de licenças e aprovações, o que pode dissuadir o investimento e a inovação. Apesar do mercado único, há diferenças nas regulamentações, normas e procedimentos nacionais que criam obstáculos à entrada no mercado e aumentam os custos para as empresas que operam em vários Estados‑Membros. Simplificação não significa desregulamentação. Não se trata de desmantelar o Pacto Ecológico, eliminar as salvaguardas sociais fundamentais ou tornar a Europa mais parecida com os EUA. Trata-se de reduzir a burocracia que não beneficia ninguém.

3.2.6 Embora a reindustrialização possa criar novos empregos, pode também levar à substituição pela tecnologia, em que a automatização e as tecnologias avançadas substituem certos tipos de trabalho . Para fazer face a essa eventualidade, serão necessários programas específicos em matéria de requalificação e políticas sociais.

3.2.7À medida que as indústrias se tornam mais competitivas, pode haver uma maior pressão por parte dos concorrentes mundiais. A manutenção de uma vantagem competitiva exigirá esforços contínuos de inovação e investimento .

3.2.8O diálogo social, incluindo a negociação coletiva, deve estar integrado no processo de reindustrialização, a fim de assegurar uma abordagem participativa. Os empregadores e os trabalhadores devem empenhar-se na criação e implantação de programas de formação competitivos que promovam a coesão industrial, social e territorial através da negociação coletiva e da participação dos trabalhadores a nível da empresa. Um novo contrato social também deve ter em conta a sociedade civil organizada, a voz dos jovens e, em especial, as regiões mais afetadas pelas transições.

3.3O papel da indústria enquanto motor da inovação e dos serviços de valor acrescentado

3.3.1A indústria desempenha um papel fundamental para a reindustrialização da Europa, ao fomentar o crescimento económico, a inovação e a sustentabilidade. Apoia o desenvolvimento de serviços de elevado valor, atenua a crise do custo de vida e trava a desindustrialização, impulsionando a inovação, revitalizando as economias locais, criando emprego e incentivos para a população permanecer nas zonas industriais.

3.3.2A indústria é um motor essencial da inovação, liderando frequentemente a investigação e o desenvolvimento de novas tecnologias e processos. Esta inovação pode repercutir-se noutros setores, promovendo uma cultura de melhoria contínua e de progresso tecnológico.

3.3.3A indústria promove frequentemente serviços de valor acrescentado que reforçam a cadeia de valor global. Tal vai das técnicas de fabrico avançadas aos serviços pós-venda, o que contribui para reduzir os custos de produção e se salda por produtos de maior qualidade e uma maior satisfação dos clientes.

3.3.4Os empregos industriais, em especial nos setores da indústria transformadora avançada e da alta tecnologia, tendem a oferecer salários mais elevados do que os salários oferecidos em muitos empregos no setor dos serviços. Tal pode contribuir para melhorar o nível de vida e reduzir a desigualdade de rendimentos.

3.3.5O setor industrial oferece oportunidades significativas de crescimento profissional e de progressão na carreira. Os trabalhadores podem beneficiar da aprendizagem contínua, do desenvolvimento de competências e do potencial de passagem para cargos de nível superior.

Bruxelas, 5 de junho de 2025

O Presidente da Comissão Consultiva das Mutações Industriais

Pietro Francesco De Lotto

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(1)    Pareceres do CESE – Reindustrialização da Europa – Oportunidades para as empresas, os trabalhadores e os cidadãos no contexto da crise do custo de vida , Deixar as crises para trás – Medidas para uma economia europeia resiliente, coesa e inclusiva , Impacto das disfuncionalidades do mercado único no agravamento do custo de vida , Eliminar progressivamente as subvenções aos combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, assegurar a competitividade europeia, atenuar a crise do custo de vida e promover uma transição justa , Fragmentação das cadeias de abastecimento e impacto no custo de vida , Como fazer face à perda de poder de compra e ao risco de aumento das desigualdades, da exclusão e da marginalização , Aumento dos preços dos transportes, da energia e da habitação: a importância de serviços públicos de qualidade para combater o custo de vida elevado .
(2)    Parecer do CESE – Recomendações da sociedade civil organizada para fazer face à crise do custo de vida .
(3)     Eurobarómetro 2022 .
(4)     Eurobarómetro 2024 .
(5)     «Quality of life in the EU in 2024 – Results from the Living and Working in the EU e-survey», 2025, Eurofound .
(6)     Eurostat .
(7)     Preços e custo da energia na Europa, 2024, Comissão Europeia .
(8)     Relatório Draghi sobre o Futuro da Competitividade Europeia .
(9)    Labour Market and Wage Developments in Europe, relatório anual de 2024, Direção-Geral do Emprego, Comissão Europeia.
(10)    Instituto Europeu para a Igualdade de Género, 2021.
(11)    Serviço de Estudos do Parlamento Europeu (EPRS), 2024.
(12)    Eurofound 2023.
(13)     «National accounts and GDP», Eurostat, 2024 .
(14)     «The changing structure of employment in the EU: Annual Review 2023», Eurofound, 2023 .
(15)    Relatório anual de 2025 sobre o mercado único e a competitividade, 2025, Comissão Europeia.