RELATÓRIO DA COMISSÃO AO PARLAMENTO EUROPEU E AO CONSELHO sobre a aplicação pelos Estados-Membros das Decisões-Quadro 2008/909/JAI, 2008/947/JAI e 2009/829/JAI relativas à aplicação do princípio do reconhecimento mútuo às sentenças em matéria penal que imponham penas ou outras medidas privativas de liberdade, às sentenças e decisões relativas à liberdade condicional e a sanções alternativas e às medidas de controlo, em alternativa à prisão preventiva /* COM/2014/057 final */
ÍNDICE 1........... Introdução.................................................................................................................... 3 2........... Antecedentes das decisões-quadro: um pacote legislativo
coerente e complementar.. 4 3........... Ponto da situação sobre a aplicação e consequências da não
transposição................... 5 4........... Avaliação preliminar das legislações de transposição
notificadas................................ 6 4.1........ Papel da pessoa em causa no processo de transferência............................................... 6 4.2........ Princípio da confiança mútua: em princípio, ausência de
adaptação da condenação... 7 4.3........ Decisões subsequentes: diferenças na execução da condenação.................................. 8 4.4........ Obrigação de aceitar uma transferência, salvo em caso de
aplicação de motivos de recusa 8 4.5........ Prazos............................................................................................................................ 9 4.6........ Ligação entre as decisões-quadro e o mandado de detenção
europeu....................... 10 4.7........ Declarações sobre disposições transitórias.................................................................. 10 5........... Novo enquadramento jurídico para assegurar a aplicação
prática da legislação do terceiro pilar 11 6........... Conclusão................................................................................................................... 11 RELATÓRIO DA COMISSÃO AO PARLAMENTO EUROPEU E AO CONSELHO sobre
a aplicação pelos Estados-Membros das Decisões-Quadro 2008/909/JAI,
2008/947/JAI e 2009/829/JAI relativas à aplicação do princípio do
reconhecimento mútuo às sentenças em matéria penal que imponham penas ou outras
medidas privativas de liberdade, às sentenças e decisões relativas à liberdade
condicional e a sanções alternativas e às medidas de controlo, em alternativa à
prisão preventiva (1)
Introdução Num espaço europeu
comum de justiça, assente na confiança mútua, a UE adotou medidas para garantir
que os não-residentes sujeitos a processo penal não são tratados de forma diferente
dos residentes. Esta questão é especialmente importante tendo em conta o número
significativo de cidadãos da UE que são detidos noutros Estados-Membros. Foi neste espírito
que a UE adotou, em 2008 e 2009, três decisões-quadro complementares, cujos
prazos de transposição caducaram: ·
A Decisão-Quadro 2008/909/JAI do Conselho[1] relativa à aplicação do
princípio do reconhecimento mútuo às sentenças em matéria penal que imponham
penas ou outras medidas privativas de liberdade (decisão-quadro relativa à transferência
de detidos) tinha de ser transposta até 5 de dezembro de 2011. Por um lado,
permite que um Estado-Membro execute uma pena de prisão emitida por outro
Estado-Membro contra uma pessoa que permanece no primeiro Estado-Membro. Por
outro lado, estabelece um sistema de transferência de presos já condenados para
o respetivo Estado-Membro de nacionalidade ou residência habitual (ou para
outro Estado-Membro com o qual tenham laços estreitos) a fim de cumprir a sua
pena de prisão. ·
A Decisão-Quadro 2008/947/JAI do Conselho[2] respeitante à aplicação
do princípio do reconhecimento mútuo às sentenças e decisões relativas à
liberdade condicional e a sanções alternativas (decisão-quadro relativa à
liberdade condicional e a sanções alternativas) tinha de ser transposta até
6 de dezembro de 2011. É aplicável a muitas medidas alternativas à detenção e a
medidas que facilitam a libertação antecipada (por exemplo, proibição de entrar
em certos locais, obrigação de efetuar um serviço de interesse comunitário ou
instruções relativas a residência, formação ou atividades profissionais). A
decisão de liberdade condicional ou outra sanção alternativa pode ser executada
noutro Estado-Membro, desde que a pessoa em causa dê o seu consentimento. ·
A Decisão-Quadro 2009/829/JAI do Conselho[3] relativa à aplicação,
entre os Estados-Membros da União Europeia, do princípio do reconhecimento
mútuo às decisões sobre medidas de controlo, em alternativa à prisão preventiva
(decisão-quadro relativa à decisão europeia de controlo) tinha de ser
transposta até 1 de dezembro de 2012. Diz respeito à libertação provisória na
fase anterior ao julgamento. Permitirá a transferência de uma medida de
controlo não privativa de liberdade (por exemplo, obrigação de permanecer num
lugar determinado ou de comparecer em determinadas datas perante uma autoridade
específica) do Estado-Membro em que o não-residente é suspeito de ter cometido
uma infração para o Estado-Membro em que reside habitualmente. O suspeito
poderá assim ser objeto de uma medida de controlo no seu Estado-Membro de
origem até à realização do julgamento noutro Estado-Membro, em vez de ser
colocado em detenção preventiva. A análise das
inúmeras respostas ao Livro Verde da Comissão, de junho de 2011, sobre a
aplicação da legislação penal da UE no domínio da detenção[4], mostrou que a
aplicação adequada e atempada das decisões-quadro deveria ter prioridade
absoluta. O objetivo do
presente relatório é, por conseguinte, duplo: em primeiro lugar, avaliar o
estado de transposição das decisões-quadro no contexto das competências
atribuídas à Comissão no sentido de dar início a processos por infração a
partir de 1 de dezembro de 2014[5];
em segundo lugar, oferecer uma avaliação preliminar das legislações de
transposição nacionais já notificadas à Comissão. (2)
Antecedentes das decisões-quadro: um pacote
legislativo coerente e complementar Todos os anos,
dezenas de milhares de cidadãos da UE são julgados por alegados crimes ou
condenados noutro Estado-Membro da União Europeia. Muito frequentemente, os
tribunais penais ordenam a detenção de não-residentes, por recearem que estes
não compareçam em juízo. Numa situação semelhante, um suspeito residente no
país beneficiaria, muitas vezes, de uma medida de controlo menos coerciva,
designadamente a obrigação de se apresentar à polícia ou a interdição de livre
circulação. As decisões-quadro
devem ser entendidas como um pacote legislativo coerente e complementar que
aborda a questão da detenção de cidadãos da UE noutros Estados-Membros e que
pode levar a uma redução da detenção preventiva ou facilitar a reinserção
social dos detidos num contexto transfronteiras. Existem efetivamente vínculos
operacionais entre as três decisões-quadro, mas também entre estas e a
decisão-quadro relativa ao mandado de detenção europeu[6]. A aplicação correta
da decisão-quadro relativa à decisão europeia de controlo por todos os
Estados-Membros permitirá que os suspeitos alvo de um mandado de detenção
europeu possam regressar rapidamente ao seu país de residência enquanto
aguardam julgamento noutro Estado-Membro. Permitirá igualmente evitar longos
períodos de detenção preventiva num país estrangeiro na sequência da execução
de um mandado de detenção europeu e antes da realização do julgamento. Além
disso, a aplicação adequada da decisão-quadro relativa à liberdade
condicional e a sanções alternativas incentivará os juízes, que passam a
ter a certeza de que a pessoa em causa será devidamente vigiada noutro
Estado-Membro, a imporem sanções alternativas a executar no estrangeiro, em vez
de penas de prisão. Existe igualmente
um nexo entre a decisão-quadro relativa à decisão europeia de controlo e
a decisão-quadro relativa à liberdade condicional e a sanções alternativas.
Com efeito, se o arguido já tiver sido transferido ao abrigo da decisão‑quadro
relativa à decisão europeia de controlo na fase anterior ao julgamento e
tiver demonstrado que satisfaz as condições que lhe foram impostas na fase
anterior ao julgamento, o juiz estará naturalmente mais disposto a impor uma
sanção alternativa (em vez da detenção), que pode ser executada no estrangeiro
na fase posterior ao julgamento. Acresce que o
artigo 25.º da decisão-quadro relativa à transferência de detidos
estabelece uma ligação com a decisão-quadro relativa ao mandado de detenção
europeu. Esta disposição, em conjugação com o artigo 4.º, n.º 6, e o
artigo 5.º, n.º 3, da decisão-quadro relativa ao mandado de
detenção europeu, permite que um Estado-Membro recuse a entrega dos seus
nacionais ou de residentes ou pessoas que permanecem no seu território, se se comprometer
a executar a pena de prisão em conformidade com a decisão-quadro relativa à
transferência de detidos. A plena utilização
do potencial oferecido por este pacote legislativo exige a correta transposição
das decisões-quadro para a legislação nacional. (3)
Ponto da situação sobre a aplicação e consequências
da não transposição No momento da
redação do presente relatório, respetivamente 10, 14 e 16 Estados‑Membros
não transpuseram ainda as decisões-quadro mais de 2 anos e 1 ano,
respetivamente, após a sua data de aplicação. A Comissão apenas recebeu
notificações das legislações de transposição nacionais dos Estados-Membros
seguintes: ·
Transferência de detidos: DK, FI, IT, LU e UK até à data-limite de transposição e AT,
BE, CZ, FR, HR, HU, LV, MT, NL, PL, RO, SI e SK após a data-limite de
transposição. ·
Liberdade condicional e sanções alternativas: DK e FI até à data-limite de transposição e AT, BE, BG, CZ,
HR, HU, LV, NL, PL, RO, SI e SK após a data-limite de transposição. ·
Decisão europeia de controlo: DK, FI, LV e PL até à data-limite de transposição e AT, CZ,
HR, HU, NL, RO, SI e SK após a data-limite de transposição. Não foi recebida nenhuma notificação dos Estados-Membros
seguintes[7]: ·
Transferência de detidos: BG, CY, DE, EE, EL, ES, IE, LT, PT e SE. ·
Liberdade condicional e sanções alternativas: CY, DE, EE, EL, ES, FR, IE, IT, LT, LU, MT, PT, SE e UK. ·
Decisão europeia de controlo: BE, BG, CY, DE, EE, EL, ES, FR, IE, IT, LT, LU, MT, PT, SE e UK . Um quadro relativo
ao ponto da situação sobre a aplicação das decisões-quadro e um quadro com as
declarações feitas pelos Estados-Membros neste contexto figuram no documento de
trabalho dos serviços da Comissão em anexo. As decisões-quadro
devem ser aplicadas pelos Estados-Membros, tal como sucede em relação a qualquer
outro elemento do acervo da UE. Pela sua natureza, as decisões-quadro são
vinculativas para os Estados-Membros no respeitante aos resultados a alcançar,
mas é às autoridades nacionais que compete decidir a forma e o método da sua
aplicação. As decisões-quadro não produzem efeito direto. Contudo, o princípio
da interpretação conforme é vinculativo para as decisões-quadro adotadas no
contexto do título VI do antigo Tratado da União Europeia[8]. A não-transposição
das decisões-quadro por certos Estados-Membros é muito problemática, pois os
Estados-Membros que as transpuseram corretamente não podem beneficiar das
respetivas disposições em matéria de cooperação nas suas relações com os
Estados-Membros que não as transpuseram em tempo útil. Com efeito, o princípio
do reconhecimento mútuo, que constitui a pedra angular do espaço judiciário
europeu, exige uma reciprocidade de transposição, não podendo funcionar se os
instrumentos não forem corretamente aplicados em ambos os Estados-Membros.
Consequentemente, em caso de cooperação com um Estado‑Membro que não
procedeu à transposição no prazo devido, os Estados‑Membros que o tenham
feito deverão continuar a aplicar as correspondentes convenções do Conselho da
Europa sempre que transfiram detidos ou condenações da UE para outros
Estados-Membros. (4)
Avaliação preliminar das legislações de
transposição notificadas Por ocasião das
reuniões de peritos com os Estados-Membros, tornou-se evidente que certas
questões e disposições jurídicas necessitam de maior atenção. Este aspeto foi
igualmente confirmado por uma análise preliminar da legislação de transposição
dos Estados-Membros já recebida pela Comissão. Por conseguinte, o
presente relatório incide sobre os artigos que constituem o ponto fulcral das
decisões-quadro à luz dos seus objetivos. Na medida em que abrange as três
decisões-quadro, os artigos são agrupados por tema. Como se trata de
uma avaliação preliminar, é demasiado prematuro retirar conclusões gerais sobre
a qualidade da aplicação. Tal deve-se também ao facto de muitos Estados‑Membros
não cumprirem ainda a obrigação que lhes incumbe de transporem as
decisões-quadro. Acresce que, até à
data, os Estados-Membros adquiriram pouca experiência prática da aplicação das
decisões-quadro. No momento da redação do presente relatório, a Comissão tinha
recebido certas informações indicativas limitadas sobre a aplicação prática das
decisões-quadro de três Estados-Membros (BE, FI e NL). Os poucos dados
disponíveis revelam que a decisão-quadro relativa à transferência de detidos
já é utilizada, mas ainda não foram efetuadas transferências no âmbito da decisão‑quadro
relativa à liberdade condicional e a sanções alternativas e da decisão‑quadro
relativa à decisão europeia de controlo. Os esforços dos
Estados-Membros que transpuseram as decisões-quadro no prazo devido devem ser
salientados e as observações relativas a estes Estados-Membros devem ser
entendidas à luz da abordagem da Comissão que consiste em prestar assistência
ao processo de transposição. (1)
Papel da pessoa em causa no processo de
transferência (Artigo 6.º
da decisão-quadro relativa à transferência de detidos, artigo 5.º da
decisão-quadro relativa à liberdade condicional e a sanções alternativas e
artigo 9.º da decisão-quadro relativa à decisão europeia de controlo) Devido à
importância da reinserção social enquanto princípio orientador das
decisões-quadro, a legislação de transposição dos Estados-Membros deve
assegurar que a pessoa em causa é devidamente consultada por ocasião das
decisões de transferência. Contudo, o artigo 6.º
da decisão-quadro relativa à transferência de detidos prevê a
possibilidade de transferência sem o consentimento da pessoa condenada em
certas circunstâncias. Como se trata de um elemento novo em relação à Convenção
do Conselho da Europa de 1983[9],
é importante que os Estados-Membros tenham transposto corretamente esta
disposição. A legislação de transposição apenas deveria prever a transferência
da pessoa condenada sem o seu consentimento nas três circunstâncias limitadas
indicadas no artigo. Importa prever, no mínimo, disposições sobre a tomada em
consideração da opinião da pessoa condenada (se esta se encontrar ainda no
Estado de emissão), a transmissão de informações à pessoa condenada, a consulta
entre as autoridades competentes e a possibilidade de as autoridades do Estado
de execução formularem um parecer fundamentado. De uma análise
preliminar da legislação de transposição dos Estados-Membros resulta que nem
sempre se encontra expressamente prevista a obrigação de informar a pessoa e de
lhe conceder a possibilidade de exprimir a sua opinião, que deve ser tida em
conta. No âmbito da decisão-quadro
relativa à liberdade condicional e a sanções alternativas, o consentimento
da pessoa condenada é sistematicamente exigido, a menos que a pessoa tenha regressado
ao Estado de execução e, nesse caso, o seu consentimento é implícito. Trata-se
de um aspeto importante, na medida em que a decisão-quadro não pode ser
invocada contra a vontade da pessoa em causa. Isto explica-se pelo facto de a
decisão-quadro só ser aplicável se a pessoa já tiver sido libertada no Estado
de emissão e pretender regressar livremente ao seu país de origem e se estiver
disposta a cooperar com as autoridades de controlo. O mesmo se aplica à decisão-quadro
relativa à decisão europeia de controlo, que se refere à fase anterior ao
julgamento em que continua a existir presunção de inocência. A Comissão avaliará
se os Estados-Membros estabelecem corretamente na sua legislação de
transposição um procedimento efetivo que confira à pessoa condenada um papel no
processo de transferência. (2)
Princípio da confiança mútua: em princípio,
ausência de adaptação da condenação (Artigo 8.º
da decisão-quadro relativa à transferência de detidos, artigo 9.º da
decisão-quadro relativa à liberdade condicional e a sanções alternativas e
artigo 13.º da decisão-quadro relativa à decisão europeia de controlo) É importante
encontrar o justo equilíbrio entre o respeito da condenação originalmente
imposta e as tradições jurídicas dos Estados-Membros, para que não surjam
conflitos que possam prejudicar o funcionamento das decisões-quadro. Na medida
em que as decisões-quadro assentam na confiança mútua nos sistemas jurídicos
dos outros Estados-Membros, a decisão do juiz do Estado de emissão deve ser
respeitada e, em princípio, não deve ser revista ou adaptada. A condenação só
pode ser adaptada se a sua duração ou natureza não for compatível com a
legislação nacional do Estado de execução (nomeadamente em caso de pena máxima
legal). No entanto, a condenação adaptada deve corresponder, tanto quanto
possível, à condenação original. Uma adaptação não pode, em termos da sua
natureza ou duração, agravar a condenação imposta no Estado de emissão. Certos
Estados-Membros alargaram as possibilidades de adaptação, aditando novas condições
(PL e LV). Este alargamento abre a possibilidade de o Estado de execução
avaliar se a condenação imposta no Estado de emissão corresponde à que teria
sido normalmente aplicada por esta infração no Estado de execução, o que é
obviamente contrário aos objetivos e ao espírito das decisões-quadro. No respeitante às
penas não privativas de liberdade, a decisão-quadro relativa à liberdade
condicional e a sanções alternativas garante que uma sanção alternativa
pode ser transferida, ainda que este tipo de sanção não seja imposta por uma
infração semelhante no Estado-Membro de execução. Além disso, atendendo a que
os Estados‑Membros devem prever, no mínimo, as medidas de vigilância e as
sanções alternativas mencionadas no artigo 4.º, n.º 1, da decisão‑quadro,
um efeito secundário positivo será a promoção e aproximação das alternativas à
detenção nos diferentes Estados-Membros. Uma avaliação preliminar das
legislações mostra que certos Estados-Membros não transpuseram todas as medidas
obrigatórias (BG e PL). O mesmo se aplica à
decisão-quadro relativa à decisão europeia de controlo, no âmbito da
qual os Estados-Membros devem prever, pelo menos, as seis medidas obrigatórias
mencionadas no artigo 8.°, n.° 1. A Hungria apenas permite a transferência de
três medidas de controlo. (3)
Decisões subsequentes: diferenças na execução da
condenação (Artigo 17.º
da decisão-quadro relativa à transferência de detidos, artigo 14.º da
decisão-quadro relativa à liberdade condicional e a sanções alternativas e
artigo 18.º da decisão-quadro relativa à decisão europeia de controlo) O tempo que a
pessoa condenada passará efetivamente na prisão depende, em larga medida, das
disposições em matéria de libertação antecipada e liberdade condicional
vigentes no Estado de execução. Neste capítulo, as diferenças entre os Estados‑Membros
são consideráveis: em certos Estados-Membros, a pessoa condenada é libertada
após ter cumprido dois terços da condenação, noutros após ter cumprido um terço
da mesma. O artigo 17.º
da decisão-quadro relativa à transferência de detidos prevê que a
execução de uma condenação, incluindo os motivos para a libertação antecipada e
a liberdade condicional, é regida pela legislação do Estado de execução. Se
solicitado, este Estado-Membro deve informar o Estado‑Membro que proferiu
a condenação original sobre as regras dos Estados de execução em matéria de
libertação antecipada ou liberdade condicional. Se o Estado de emissão recear
que a transferência conduza a uma libertação que este considere prematura, pode
decidir não transferir a pessoa em causa e retirar a certidão. Por conseguinte,
é importante que os Estados-Membros transponham corretamente a obrigação de
prestarem este tipo de informações, a pedido, antes da transferência e execução
da condenação, o que não acontece relativamente à legislação de transposição de
certos Estados‑Membros. A Comissão
incentivará o intercâmbio de informações sobre libertação antecipada e
liberdade condicional através de bases de dados, em cooperação com os Estados‑Membros
e as partes interessadas. (4)
Obrigação de aceitar uma transferência, salvo em
caso de aplicação de motivos de recusa (Artigo 9.º
da decisão-quadro relativa à transferência de detidos, artigo 11.º da
decisão-quadro relativa à liberdade condicional e a sanções alternativas e artigo
15.º da decisão-quadro relativa à decisão europeia de controlo) Um dos novos
aspetos das decisões-quadro é o facto de imporem, em princípio, a obrigação de
aceitar pedidos de transferência. Esta resulta do princípio do reconhecimento
mútuo em que se baseiam as decisões-quadro e reflete-se na disposição comum às
decisões-quadro que estabelece que o Estado de execução deve reconhecer
uma sentença enviada pelo Estado de emissão. As transferências apenas podem ser
recusadas em circunstâncias limitadas, nomeadamente se forem aplicáveis os
motivos de recusa mencionados nas diversas decisões-quadro. Em contrapartida,
não existe qualquer obrigação de o Estado de emissão enviar uma sentença (ver
artigo 4.º, n.º 5, da decisão-quadro relativa à transferência de detidos).
Uma análise
preliminar da legislação de transposição dos Estados-Membros mostra que existem
grandes variações na transposição dos motivos de recusa. Certos Estados-Membros
não transpuseram todos os motivos de recusa previstos nas decisões-quadro (HU,
LU, NL, DK e LV) e outros acrescentaram motivos adicionais (AT, BE e DK).
Certos Estados-Membros transpuseram corretamente os motivos de recusa como
sendo facultativos para a autoridade competente (FI, LV e BG), outros
transpuseram-nos como sendo obrigatórios (AT, IT, MT e SK) e num terceiro grupo
o resultado final consiste numa combinação de motivos facultativos e
obrigatórios (BE, DK, HU, LU, NL e PL). A transposição de
motivos de recusa adicionais e o seu caráter obrigatório parecem contrários à
letra e ao espírito das decisões-quadro. No respeitante à
questão de determinar se a aplicação dos motivos de recusa deve ser facultativa
para as autoridades competentes, que tomarão a decisão de reconhecimento e
execução, o texto das decisões-quadro indica claramente que a autoridade
competente «pode» recusar o reconhecimento da sentença e a execução da
condenação se forem aplicáveis os motivos de recusa. Esta redação indica que a
autoridade competente deve ter a possibilidade de decidir, caso a caso, se aplica
ou não um motivo de recusa tendo em conta a dimensão da reinserção social
subjacente às três decisões‑quadro. Os motivos de recusa deveriam, por
conseguinte, ser transpostos como sendo facultativos para a autoridade
competente. Esta abordagem está
em consonância com o espírito das decisões-quadro, que exigem que a
transferência reforce as perspetivas de reinserção social e possa realizar-se a
pedido explícito do arguido ou da pessoa condenada. Em tal caso, a obrigação de
recusar a transferência devido à aplicação de um dos motivos de recusa não
seria, normalmente, do interesse da pessoa condenada. (5)
Prazos (Artigo 12.º
da decisão-quadro relativa à transferência de detidos, artigo 12.º da
decisão-quadro relativa à liberdade condicional e a sanções alternativas e
artigo 12.º da decisão-quadro relativa à decisão europeia de controlo) As decisões-quadro
estabelecem um novo sistema simplificado e mais eficaz de transferência de
condenações destinado a facilitar e acelerar a cooperação judiciária. Por
conseguinte, estabelecem prazos fixos para a realização da transferência. Os prazos devem ser
aplicados pelos Estados-Membros de tal forma que, regra geral, a decisão
definitiva, inclusive o processo de recurso, seja tomada no prazo fixado. Os
prazos só podem ser superados em circunstâncias excecionais. Embora seja
geralmente aceite que todos os Estados-Membros devem garantir que as pessoas
condenadas podem aceder a direitos e vias de recurso legais, em conformidade
com a respetiva legislação nacional, as legislações de transposição da AT, HU e
LV não estabelecem um prazo máximo aplicável às decisões dos tribunais no
quadro dos procedimentos de recurso relativos às transferências. Os Estados-Membros
devem garantir o estabelecimento de um equilíbrio entre a integração de vias de
recurso no seu sistema e a importância de respeitar os prazos previstos nas
decisões-quadro[10]. (6)
Ligação entre as decisões-quadro e o mandado de
detenção europeu (Artigo 25.º
da decisão-quadro relativa à transferência de detidos e artigo 21.º da decisão-quadro
relativa à decisão europeia de controlo) O artigo 25.º
da decisão-quadro relativa à transferência de detidos, em conjugação com
o artigo 4.º, n.º 6, e o artigo 5.º, n.º 3, do mandado de
detenção europeu, permite que um Estado-Membro recuse a entrega de uma
pessoa por força de um mandado de detenção europeu (ou autorize a entrega, na
condição de a pessoa lhe ser devolvida), desde que a pessoa procurada seja
nacional, residente ou permaneça no território desse Estado-Membro, se este se
comprometer a executar a pena de prisão em conformidade com a decisão-quadro
relativa à transferência de detidos. Certos
Estados-Membros não indicaram na sua legislação de transposição que as
respetivas disposições nacionais de transposição da decisão-quadro relativa
à transferência de detidos devem aplicar-se nas situações supracitadas (DK,
HU, LU, LV, MT e SK). A Áustria apenas prevê esta possibilidade quando o pedido
de entrega se refere aos seus próprios nacionais. Em vez de respeitarem a
obrigação de executarem a condenação imposta no Estado de emissão, os Países
Baixos reservaram-se o direito de avaliarem se a pena privativa de
liberdade imposta corresponde àquela que teria sido aplicada nos Países Baixos
pela mesma infração. Esta situação parece ser contrária à letra e ao espírito
das decisões-quadro. O artigo 21.º
da decisão-quadro relativa à decisão europeia de controlo prevê a
possibilidade de emissão de um mandado de detenção europeu para que a pessoa
regresse ao país, caso deva comparecer em juízo ou não satisfaça as condições
impostas pela decisão-quadro relativa à decisão-quadro europeia de controlo.
Nem todos os Estados-Membros transpuseram o artigo 21.º (HU, LV e PL). Esta situação é
lamentável, dado que, pela sua própria natureza, uma decisão-quadro relativa à
decisão europeia de controlo seria muito útil para permitir que as pessoas que
aguardam julgamento por infrações relativamente menores regressem ao seu país.
Em reconhecimento desta realidade, o artigo 21.º da decisão-quadro
relativa à decisão europeia de controlo dispensa expressamente o requisito
normal previsto no mandado de detenção europeu, segundo o qual a infração
relativamente à qual o mandado de detenção europeu é emitido é punível com pena
privativa de liberdade com uma duração máxima não inferior a 12 meses[11]. (7)
Declarações sobre disposições transitórias (Artigo 28.º
da declaração-quadro relativa à transferência de detidos) O artigo 28.º
da decisão-quadro relativa à transferência de detidos permite que,
aquando da aprovação da decisão-quadro, os Estados-Membros façam uma declaração
indicando que, nos casos em que a sentença tenha sido proferida antes de uma
data que especificarão (que não pode ser posterior a 5 de dezembro de 2011),
continuam a aplicar os instrumentos jurídicos existentes relativos à
transferência de pessoas condenadas. As decisões-quadro foram adotadas em 27 de
novembro de 2008. Resulta das
informações comunicadas à Comissão que quatro Estados-Membros (IE, MT, NL e PL)
apresentaram tal declaração. No entanto, segundo as últimas informações
recebidas pela Comissão, a IE, MT e PL fizeram-no depois da data de adoção da
decisão-quadro, ou seja, após 27 de novembro de 2008. Na opinião da Comissão,
essas declarações não são válidas e os Estados-Membros deveriam retirar
imediatamente a data-limite da sua legislação de transposição em vigor ou
proposta. (8)
Novo enquadramento jurídico para assegurar a
aplicação prática da legislação do terceiro pilar As decisões-quadro
que foram adotadas no âmbito do chamado «terceiro pilar» foram aprovadas por
unanimidade, pelos Estados-Membros, que se comprometeram a aplicá-las antes do
termo da data de transposição. Os Estados-Membros
criaram, por conseguinte, uma ordem jurídica que os vincula, como noutras áreas
do direito da UE, ainda que não esteja disponível nenhum mecanismo de execução
até ao termo do período de transição, ao abrigo do Protocolo n.º 36 do
Tratado de Lisboa. É vulgarmente
aceite que a força executória do direito da UE, incluindo medidas adotadas no
âmbito do terceiro pilar, não pode variar de um Estado-Membro para outro em
função do nível de transposição para a ordem jurídica nacional, sem comprometer
a consecução da efetiva cooperação judiciária. A partir de 1 de
dezembro de 2014, o Tribunal de Justiça da UE terá plena jurisdição, incluindo,
a título prejudicial, sobre a interpretação da legislação, no domínio da
cooperação policial e da cooperação judiciária em matéria penal. A Comissão e
os Estados-Membros terão direito a iniciar processos por infração contra os
Estados-Membros que não transpuseram o direito da UE ou não o fizeram
corretamente. Estas novas
oportunidades serão especialmente pertinentes no respeitante aos mais
importantes instrumentos legislativos adotados, antes da entrada em vigor do
Tratado de Lisboa, no domínio da justiça penal, entre os quais se contam, na
opinião da Comissão, as três decisões-quadro. (9)
Conclusão Embora seja
necessário reconhecer os esforços envidados, até à data, por certos
Estados-Membros, o grau de aplicação destes três importantes instrumentos legislativos
está longe de ser satisfatório. O objetivo que
consiste em desenvolver um espaço de liberdade, segurança e justiça para todos
os cidadãos da UE, previsto no artigo 3.º do Tratado da União Europeia,
não pode ser alcançado se os Estados-Membros não aplicarem corretamente os
instrumentos que aprovaram. A transposição
parcial e incompleta das decisões-quadro obsta à aplicação do princípio do
reconhecimento mútuo no domínio da justiça penal. Por outro lado, afeta as
expectativas legítimas dos cidadãos da UE, que perdem uma valiosa ferramenta
capaz de reduzir o impacto negativo para as suas vidas decorrente do facto de
serem considerados suspeitos ou de serem acusados noutro Estado‑Membro,
nomeadamente se forem objeto de um mandado de detenção europeu na fase anterior
ao julgamento. Ao mesmo tempo, esta situação impede a consecução do objetivo
das decisões-quadro, que consiste em garantir que seja feita justiça,
melhorando simultaneamente a reinserção social da pessoa suspeita ou acusada. Por último, a transposição
tardia é de lamentar, na medida em que as decisões‑quadro têm a
capacidade de contribuir para uma redução das penas de prisão impostas pelos
juízes a não-residentes, o que poderia não só reduzir a sobrepopulação prisional e, por isso
mesmo, melhorar as condições de detenção, mas também, como consequência,
permitir economias consideráveis nos orçamentos consagrados pelos
Estados-Membros aos estabelecimentos penitenciários. Atendendo
a que, a partir de 1 de dezembro de 2014, a Comissão terá competência para dar
início a processos por infração, é da máxima importância para todos os
Estados-Membros analisarem o presente relatório e comunicarem todas as
informações complementares que considerarem pertinentes à Comissão, a fim de
cumprirem as obrigações que lhes incumbem por força do Tratado. Além disso, a
Comissão incentiva os Estados-Membros que indicaram estar a elaborar legislação
pertinente, a promulgarem e notificarem, o mais rapidamente possível, as
respetivas medidas nacionais. A Comissão insta todos os Estados-Membros que
ainda o não fizeram a adotarem rapidamente medidas de transposição, o mais
exaustivas possível, destas decisões-quadro. Convida igualmente os Estados‑Membros
que as transpuseram incorretamente a reverem e alinharem a sua legislação de
transposição nacional pelas disposições das decisões-quadro. [1] Decisão-Quadro 2008/909/JAI do Conselho adotada em 27 de
novembro de 2008 (JO L 327 de 5.12.2008, p. 27). [2] Decisão-Quadro 2008/947/JAI do Conselho adotada em 27 de
novembro de 2008 (JO L 337 de 16.12.2008, p. 102). [3] Decisão-Quadro 2009/829/JAI do Conselho adotada em 23 de
outubro de 2009 (JO L 294 de 11.11.2009, p. 20). [4] COM(2011) 327 final: http://ec.europa.eu/justice/newsroom/criminal/opinion/110614_pt.htm. [5] Data do termo do período de transição, ao abrigo do
Protocolo n.º 36 do Tratado de Lisboa (ver secção 5). [6] Decisão-Quadro 2002/584/JAI do Conselho, de 13 de
junho de 2002, relativa ao mandado de detenção europeu e aos processos de
entrega entre os Estados-Membros (decisão-quadro relativa ao mandado de
detenção europeu), JO L 190 de 18.7.2002, p. 1. [7] Certos Estados-Membros informaram a Comissão do processo
de elaboração de legislação pertinente a nível nacional. Porém, nenhum destes
Estados-Membros adotou a legislação ou notificou a Comissão até dezembro de
2013. [8] Ver acórdão do Tribunal de Justiça da União Europeia, de
16 de junho de 2005, no processo C-105/03, Pupino. [9] O Protocolo Adicional de 1997 desta Convenção já previa
a transferência de detidos sem o seu consentimento em circunstâncias limitadas.
Contudo, o referido protocolo não foi ratificado por todos os Estados‑Membros. [10] Ver acórdão do Tribunal de Justiça da União Europeia, de
30 de maio de 2013, no processo C-1668/13 PPU, Jeremy F./Premier ministre. [11] Ver artigo 2.º, n.º 1, do mandado de detenção
europeu.